Um dos principais problemas de salas de aula é a acústica ou, mais especificamente, a inteligibilidade da voz. 

Este trabalho apresenta as condições necessárias para um bom ambiente de aprendizagem, com base na recente norma americana ANSI S12.60 Standard, que fixou três parâmetros acústicos importantes para salas de aula: o ruído de fundo, o tempo de reverberação e o ruído máximo para aparelhos de ar condicionado. 

Os valores indicados pela norma produzem uma relação sinal/ruído (ou voz/ruído) em qualquer ponto da sala maior que 15 dB e uma inteligibilidade da voz acima de 95%. Recentes pesquisas, em 32 escolas públicas brasileiras mostraram que poucas atendiam a esse padrão. 
 

Uma pesquisa realizada em cinco escolas de 2º grau na cidade de Bauru-SP indicou níveis de ruído em torno de 64 dB(A). Recentes medidas realizadas em salas de aula da Universidade de São Paulo indicaram níveis médios de ruído de 50 dB(A). 

Maria Lúcia Gondim da Rosa Oiticica

Graduação em Arquitetura e Urbanismo- UFAL.

Mestra em Conforto Ambiental pela Universidade de Londres.
Aluna Especial do Núcleo de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFPB.
Professora Assistente em Conforto Ambiental - UFAL - Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

A escola é a instituição que tem como objetivo o ensino de crianças, jovens e adultos, exercendo um importante papel na formação dos indivíduos e da coletividade. As edificações que abrigam as escolas devem ser capazes de produzir condições favoráveis ao desenvolvimento das atividades de seus usuários, satisfazendo diferentes necessidades ambientais. Dentre elas, podemos ressaltar a qualidade acústica nas edificações, visando à proteção dos ruídos intrusivos e garantindo a inteligibilidade dos alunos.

 

O problema da poluição sonora nas regiões urbanas brasileiras vem adquirindo grandes proporções. Fontes sonoras de diversas naturezas estão gerando um maior nível de ruído, contribuindo para a depreciação ambiental dos espaços públicos e particulares, em especial nas edificações escolares, com conseqüente decréscimo na qualidade de vida das pessoas. Diversos estudos comprovam a importância dos aspectos acústicos para obtenção de um melhor desempenho acadêmico dos alunos. Além disso, os professores que passam grandes períodos nas instalações escolares também são vítimas dos espaços pouco qualificados e inadequados ao desempenho de suas atividades profissionais. Portanto, convém resgatar a qualidade acústica nas edificações escolares como investimento no aprendizado dos alunos.


Dados do Censo Nacional de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE mostram que, no Brasil, 30% da população está em idade escolar (0-14 anos). Frente a este número, são necessários investimentos na melhoria contínua das edificações para oferecer espaços adequados à educação.

Embora os conhecimentos sobre acústica nas edificações existam há algum tempo, não têm sido implementados. As edificações escolares confrontam-se com uma realidade muito pouco adequada. Os projetistas raramente consideram problemas de acústica nas escolas, cabendo posteriormente ações corretivas a custos elevados e soluções mais complexas.

No Brasil, a legislação sobre acústica das edificações é inexpressiva. O primeiro passo para mudar esse quadro seria a conscientização da importância de ambientes bem projetados. A falta de leis federais, estaduais e municipais contribui para a perpetuação desta situação, uma vez que não há obrigação legal para o cumprimento das normas técnicas que se tornam meramente ilustrativas. Ambientes com níveis de ruído acima de 50 dB(A) são considerados desfavoráveis às condições de conforto e aprendizagem, pois nestes ambientes o ser humano pode sentir dificuldades de concentração. Para se ter uma idéia, o nível da voz humana em uma conversa normal é em torno de 65 dB(A). Considerando uma voz alta, este nível eleva-se para 75 dB(A), limite este que pode acarretar distúrbios nas cordas vocais para o professor. Desta forma, para não comprometer as condições de aprendizagem dos alunos, é essencial que se obedeça a estes índices dentro das salas de aula, para não acarretar prejuízos aos alunos, nem aos professores.

A qualidade acústica das salas de aula
Um dos objetivos da acústica de uma sala de aula é atingir o maior nível de inteligibilidade. Compreende-se por inteligibilidade a capacidade de compreensão dos alunos em uma sala de aula. Valores próximos de 100% são desejados para possibilitar melhores condições de ensino-aprendizagem.
A fim de se obter uma boa avaliação da qualidade acústica de uma sala de aula, é preciso ressaltar alguns aspectos relevantes:

- Em uma sala de aula há dois tipos de ruídos: O proveniente da voz do professor (sinal), e o de fundo ou ambiente que é todo som existente além da voz do professor (ruído), geralmente são os provenientes de barulhos internos e externos. Os ruídos internos são oriundos dos aparelhos de ar-condicionado, ventiladores ou dos próprios alunos e os ruídos externos do barulho do tráfego ou pátios dentro da própria edificação. Para atingir um grau adequado de inteligibilidade, deve-se manter uma ótima relação entre o Sinal/Ruído cuja diferença mínima entre eles fique acima de 10 dB(A). Quanto maior essa diferença, melhor a capacidade de entendimento pelos ouvintes. Valores elevados de ruído tornam o trabalho do professor extremamente difícil. Salas com níveis sonoros próximos a 75dB(A) exigem que a fala do professor seja próxima a 90dB durante seu período de trabalho, valor que pode causar problemas vocais e até mesmo auditivos. Situações críticas podem acontecer com os alunos mais distantes do professor, pois a voz vai decrescendo com a distância.

- O tempo de reverberação é um outro parâmetro acústico a ser considerado. Definido como o intervalo de tempo (em segundos) que o nível de pressão sonora leva para decair a partir da interrupção da fonte. O tempo de reverberação depende do volume da sala (m³), da área e as características dos materiais (m²) que compõem as superfícies internas (piso, paredes e teto), da ocupação da sala (pessoas, móveis e objetos) com seus respectivos coeficientes de absorção, e da freqüência considerada. Para os casos de predominância da fala, é usual a avaliação nas bandas de freqüência de 500, 1K e 2K (Hz). O tempo de reverberação ótimo para as salas de aulas é recomendado entre 4 a 6 segundos. Valores acima ou abaixo destes exigem uma melhoria das condições acústicas da edificação.

- Outro problema decorrente do tipo de reverberação inadequado é o chamado "efeito coquetel". Trata-se de uma conseqüência do ruído de fundo juntamente com péssimas qualidades acústicas da sala. Pela necessidade de ser entendido, o professor eleva a voz, mas por não haver absorção sonora suficiente, o ambiente a reflete diversas vezes e as sílabas começam a se misturar. O mesmo insucesso acontece quando se implanta sistema de amplificação sonora através de amplificadores, microfones e caixas acústicas em ambientes sem qualidade acústica. O sistema capta não somente a voz do orador, mas também do ruído de fundo, amplificando ambos; o que não corrige o problema, mas o torna ainda mais grave.

- Um importante aspecto a considerar é a geometria dos ambientes, em especial das salas de aula. A análise geométrica considera a onda sonora como um raio que parte de uma fonte sonora e propaga-se em direções determinadas pelas características direcionais da fonte e da freqüência do som. É importante lembrar que os modos acústicos da sala serão determinados por suas dimensões: comprimento, largura e altura.

Análises tipológicas e construtivas, em trabalhos realizados em edificações escolares, relatam a pouca preocupação dos projetistas com relação à qualidade acústica nas salas de aula. Alguns espaços físicos são satisfatórios quando aspectos de ventilação, iluminação, limpeza, manutenção, estética e outros são avaliados; embora a qualidade acústica seja questionável ou mesmo desconsiderada. Os espaços físicos são inadequados no combate do ruído e da melhoria das condições acústicas internas. Os projetos das escolas desconsideram o ruído proveniente do entorno, que passa a ser um importante aspecto a ser considerado na melhoria dos índices de inteligibilidade em salas de aula. A escolha dos materiais utilizados internamente é inadequada, bem como as dimensões e formas das salas de aula são pouco estudadas no tocante ao tempo de reverberação. A precária manutenção dos elementos como portas, fechaduras e janelas contribuem para a baixa capacidade de isolamento acústico. Os ruídos podem ser provenientes de aparelhos de climatização artificial, ruído externo, ruído das salas adjacentes e pátios, entre outros; solicitando dos professores um elevado esforço vocal. Na busca da qualidade acústica nas edificações escolares, o que facilitaria o aprendizado, é necessário rever os fatores envolvidos no projeto inicial, o que pode ser alcançado por meio da correlação dos valores de ruído de fundo medidos, estimativa da relação sinal/ruído e tempo de reverberação; bem como as especificações dos materiais internos, forma e dimensões da sala.